O CANARINHO
Todo raiar barretense traz
esperança.
A cidade teve uma época
dominada pelos pardais.
Era um bando de pardais
fazendo madrigais nos quintais.
Depois vieram as andorinhas.
A cidade ficou com cores de um balé.
Ritmo sincronizado. Evolução
compassada.
Especialmente na praça
central, as pequenas aves estrangeiras dançavam em torno da catedral.
Nem mais canarinhos, nem mais
andorinhas.
A cidade agora pertence as
pombas e rolas.
São donas dos muros, fios,
arbustos. Dominam o cenário sem canto e sem balé. Fazem ninhos nos galhos,
lamparinas e encostas dos telhados.
As pombas e rolas estão em
todo recanto, quase sempre em parcerias, como casais de namorados adolescentes.
Ontem porem foi um dia
diferente. Um canarinho amarelo apareceu no portal de casa.
Amarelo ouro, saltitante,
ágil, matando a saudade de uma terra de ancestrais.
- Qual o motivo de a minha
cidade não ter mais canarinho amarelo?
Será que foi por causa dos
canaviais.
Ou será que foram embora por
falta de alpistes.
Onde foram morar os
canarinhos amarelos que enfeitavam a cidade e a gente estava sempre ouvindo sua
melodia apaixonada?
Recentemente, vi araras e
maritacas cortando o céu com arruaça. Mas foram embora igualmente...
Será que também o canarinho
amarelo apareceu somente ontem, passou o dia, sepultou a saudade do chão preto,
bateu asas e retornou a sua nação distante?
Ontem, quando raiou o dia
barretense lá em casa, vi com carinho o canarinho amarelo saltitante. Foi uma
enorme alegria recordar um tempo distante que nem era preciso dizer ter visto um
canarinho amarelo cantando. Isso era tão comum, tão simples, tão evidente.
Agora não. Quando consigo ver
um canarinho amarelo na cidade paro e presto atenção. Afinal, quando será que
vou ter novamente a oportunidade do reencontro com a felicidade.
Viva o canarinho amarelo.