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Dona Matoca era uma mulher do tanque ao banco

Nascida na Fazenda Barreiro Grande ( vizinhança de Barretos) aos 18 de novembro de 1902, mais tarde nomeada e conhecida por todos domo Dona Matoca, foi batizada com o nome de Mariana Rosa Clementino dos Santos.

Filha de João dos Santos e dona Maria Alexandrina de Carvalho (conhecida como Dona Zizinha) e irmã de outros 8 filhos do casal. A família se transferiu para Barretos no início dos anos 1.900.

Mariana, aliás, Matoca, freqüentou o curso primário em Barretos no grupo escolar dr. Antonio Olimpio. Devido as dificuldades da época esta foi sua única instrução escolar, o que não a impediu, em nenhum momento, de ser “a fabulosa pessoa, esposa, mãe e avó” que todos testemunham.

Ainda jovem aprendeu com Dona Geracina (muito conhecida em Barretos) a arte de corte e costura. Costurava com gosto e afeto para si mesma e para os pais e irmãos e, depois de casada para marido e as filhas.

Extremamente religiosa e com uma fé enorme, Matoca foi filha de Maria quando solteira e depois de casada pertencia a corte de São José. Amiga e intensa interlocutora de todos os padres que passaram pela nossa paróquia.

Aos 24 anos de idade casou-se, na igreja Matriz do Divino Espírito Santo de Barretos, com o engenheiro agrônomo dr. Jerônimo Serafim Barcellos, natural do Barreiro Grande e, na época, um dos hóspedes da pensão da dona Zizinha.

É dever evidenciar que não foi o único casamento entre hóspedes da pensão e membros da família da dona Zizinha. A irmã de dona Matoca, senhora Auristela (Dindinha) casou-se com outro hóspede da pensão, o sr. Manoel Serafim Barcellos, e, vejam a coincidência, era também irmão do dr. Jerônimo. Assim, sendo, dois irmãos se casaram com duas irmãs.

Depois do casamento, dona Matoca transferiu-se para a Rua Seis, onde nasceu a primeira filha do casal Maria Alves Barcellos de Carvalho que, mais tarde, tornou-se uma das mais respeitadas e admiradas professora de matemática da nossa cidade.

Nesta época, o casal cedeu a casa ao então recém casado irmão do dr. Jerônimo, sr. Olintho Serafim e voltou a conviver com Dona Zizinha onde nasceu a segunda filha. Julia, que também se tornou uma estimada professora de pedagogia em nossa cidade.

O casal voltou a transferir residência para a Rua Quartoze, cujo imóvel ainda existe em Barretos e ali nasceu a terceira e última filha do casal, Maria Aparecida, que mantendo a tradição familiar veio a ser conhecida e estimada como professora de matemática em nossa cidade. Nesta residência permaneceram até 1943, quando a família transferiu moradia para São Paulo.

Dona Matoca, em Barretos, ocupou o posto de primeira dama por nada menos que três mandatos. Acompanhava o marido em ocasiões representativas como os jantares do Rotary Clube, onde o marido ocupou posto de presidente em diferentes mandatos.

Com o marido sempre envolvido em atividades políticas, dona Matoca teve a vida preenchida de ocasiões boas e ruins. Até tiros o marido levou devido a atividades extremas por parte de adversários políticos, durante os seus inúmeros mandatos como prefeito de nossa cidade.

Depois de 1943, em São Paulo, dona Matoca residindo na rua Machado de Assis teve o seu primeiro contacto com os fogões a gás e com outros objetos desconhecidos e inovadores daquela época. Excelente dona de casa e cozinheira de memoráveis pratos como sopa de leite com palmito ou da sua famosa macarronada ou do insuperável pudim de queijo.

Com um marido intelectual, dona Matoca pagava as contas da casa, mantinha convívio social com a vizinhança e com donos de armazéns, farmácias e tudo o mais, administrando de maneira invejável o orçamento familiar. Tarefa esta exercida de forma plena e consentida pelo marido Jerônimo, que lhe entregava o salário integral para que ela pudesse utilizá-lo da maneira que melhor lhe ocorresse. Este aspecto da vida do casal justifica o título deste artigo: do tanque ao banco.

Do jornal de São Paulo e também, quem sabe, por sentir-se longe da família dona Matoca lia, todos os dias, a coluna fúnebre para acertar-se que nenhum conhecido fizesse parte da lista publicada em seus anúncios. Depois do almoço sentava-se ao lado do marido que lhe explicava e esclarecia todos os acontecimentos noticiados pelo jornal. Esta cena permanece na lembrança de netos e filhas como expressão do extremo carinho entre o casal.

A vida na cidade grande era animada por visitas dos familiares barretenses e paulistas. Muitos parentes que por motivo de estudos transferiam-se para São Paulo e ali fixaram residência. Não era incomum que muitos que chegavam na capital vivessem temporariamente na habitação do casal e das filhas.

Dona Matoca casou as filhas em São Paulo. As iguarias, empadinhas e outros quitutes eram preparados em Barretos pelas irmãs Fiica e transportados pela ferrovia para São Paulo. O enxoval era naturalmente preparado pelas mãos hábeis de dona Matoca.

Ninguém conhecia São Paulo como ela. O guia Levy da cidade de São Paulo era o seu livro de cabeceira. Até o marido, como qualquer outro membro da família, pedia a ela esclarecimento e indicações de como chegar a diversos pontos da cidade.

Quando visitava os netos em Barretos trazia prendas simples. Balas de goma, geléia, entre outras coisas, mas que ainda hoje vivem na lembrança dos então meninos e meninas.

Saúde de ferro, nunca foi internada ou teve problemas de saúde. Sofria de enxaquecas. Deitava no escuro e muita vez acreditava que batatas enfaixadas na cabeça (crenças da época) ajudavam a cura deste mal insuportável...

Em 1973, depois de 40 anos completos, o casal retornou a Barretos indo residir na velha casa da dona Zizinha (já morta) com outros irmãos. Nesta casa, ficou viúva em 1975 e continuou morando com seus irmãos e irmãos, que viúvos voltaram a residir na casa dos pais. Dona Matoca morreu em 98 anos de idade na Santa Casa de Misericórdia de Barretos. Morreu nos braços da filha Júlia, única das três filhas ainda em vida.

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